Era suposto sentir-me feliz

Quando fui para Lisboa tinha um objetivo muito claro e nunca o neguei: ganhar dinheiro.

Durante meses, trabalhei mais do que alguma vez tinha trabalhado na vida.


Dois empregos. 

Dias intermináveis. 

Poucas horas de descanso. 

Pouco tempo para mim.

Mas resultou. 

O objetivo tinha sido cumprido.

Era suposto sentir-me feliz. Mas não foi isso que aconteceu.


Estava sozinha. Estava exausta. Estava mais magra do que alguma vez tinha estado.

E um dia acabei no Hospital de Cascais com um burnout.

Foi nesse momento que percebi uma coisa que nunca ninguém me tinha ensinado: há objetivos que conseguimos alcançar ao mesmo tempo que nos perdemos pelo caminho.

Tinha tudo o que queria: um bom emprego e um outro extra que me dava bom dinheiro e era amada pelas duas empresas. Nenhuma me queria dispensar e eu não sabia o que fazer.

Também não queria deixar ninguém ficar mal, mas começava a ser insuportável viver aquele ritmo louco.

Ao ficar doente, tive tempo. Tempo para pensar realmente no que estava a sentir.


Estava vazia.

Sentia falta dos meus pais.

Do Marley.

Dos abraços.

Dos jantares demorados.

Da vida simples que durante tanto tempo considerei garantida.

Mas havia um problema. (Algo que nunca pude partilhar aqui, até agora) 


Não tinha para onde voltar.


O sótão não estava habitável.

E, pela primeira vez, percebi a ironia da situação.

Passei meses a reconstruir as minhas finanças.

Mas a casa que queria chamar de lar continuava por reconstruir.






Permiti que a casa – a minha parte da casa – se destruísse...

 ... E mal eu sabia que eu também me estava a destruir aos poucos. 


O que Cascais me ensinou sobre abundância

Corria o ano 2023 e, graças a uma pessoa a quem serei eternamente grata por toda a aprendizagem, saí de novo de Viana. E lá fui eu… viver para Cascais.


Cascais é um mundo completamente diferente de tudo o que eu já vi e vivi.

Foi lá que comecei a observar estilos de vida, ambições e formas de encarar o sucesso muito diferentes das minhas. Foi lá que comecei a perceber uma coisa que nunca tinha questionado.

Durante muito tempo associei sucesso àquilo que era visível. Ao dinheiro. À roupa. À imagem. Ao estatuto.

Mas quanto mais observava as pessoas à minha volta, mais percebia que as verdadeiramente seguras de si eram quase invisíveis.

Não precisavam de provar nada a ninguém.

E esta foi uma lição que me acompanhou muito depois de sair de lá.

Apercebi-me que as pessoas pseudo-ricas ostentativas não me faziam bem.

Eu sou vaidosa, mas não sou de manias nem luxos. Nunca fui e nunca serei. Mas gosto de me vestir bem. Cuido de mim e arranjo-me porque sim. Não porque quero mostrar seja o que for. 


Ao longo do tempo fui aprendendo a ser discreta, cuidada, vaidosa, mais dona de mim.


Sabes quando queres sentir te bem, mas sem querer parecer sexy ou provocadora? Pois foi isso que aprendi.

A essência brilha seja qual for o tipo de roupa ou a marca da bolsa.

E foi nessa altura que comecei a olhar para a minha própria vida de forma diferente.

Para o dinheiro.

Para as minhas escolhas.

Para a casa que tinha deixado para trás.

E sem perceber, comecei a preparar-me para regressar.

Ainda não sabia.

Mas o caminho de volta já tinha começado.

Cascais 2023/2024


Chegou finalmente a altura de contar tudo

Não é por acaso que este blog esteve calado. Não é coincidência todo este silêncio, as palavras curtas ou as fotografias enigmáticas.


Estou ansiosa por vos contar tudo o que tive de manter em silêncio nos últimos tempos.



Estive a preparar uma nova entrada. E chegou finalmente a altura de contar tudo. ❤

Como sabem, estive em Lisboa durante um ano. 


Aprendi muito a nível profissional, tive dois empregos, descobri que a abundância é muitas vezes confundida com consumismo e ostentação e, acima de tudo, reconstruí a minha vida por completo.

Fui para Lisboa com um objetivo muito claro: ganhar dinheiro.

Ambiciosa? Sim, sou.

Mas por que não o ser?

Eu tinha um foco. Queria resolver as minhas finanças e juntar dinheiro para uma obra que é sonhada há seis anos.

Em 2020 remodelámos a nossa casa em Viana. 


Fizemos, em família, uma obra enorme que nos obrigou a viver fora durante alguns meses para que tudo pudesse ficar novo.

Quando regressámos, a parte de baixo da casa estava pronta.

Ficou linda.

Ficou nossa.

Ficou o nosso lar.

Com o passar do tempo, começou a chover para dentro de casa. O meu sótão ganhou humidade e tornou-se inabitável.

Mas, nessa altura, eu estava longe.


Tinha planos de não viver em Viana, de não viver naquela casa e de continuar durante mais algum tempo entre viagens, experiências e empregos fora da minha cidade.

Basicamente, não quis saber.

Enquanto perseguia novos projetos, novas experiências e novas oportunidades, deixei aquela parte da casa para trás.

Na altura parecia apenas um sótão.

Hoje sei que era muito mais do que isso.

Mas essa descoberta ainda estava longe de acontecer.


Obra 2020

Cascais 2023/2024