O meu regresso não cabia dentro de casa

Trouxe tudo o que tinha de Cascais para Viana. Desta vez, com uma carrinha enorme, trouxe tudo! Cama, secretária, cadeiras, sofá-cama, roupas, sapatos, artigos de decoração e todas as merdices que tinha comprado lá, e não deitei nada fora nem doei nada.

Tudo o que tinha já era investimento.


Durante muito tempo gastei dinheiro sem pensar verdadeiramente no futuro. Comprava coisas porque gostava delas, porque estavam na moda ou porque me faziam sentir bem naquele momento.

Desta vez era diferente. Cada compra tinha um propósito.

A cama era para descansar.

A secretária era para escrever.

A máquina de café era para os pequenos rituais das manhãs que imaginava viver quando regressasse a casa.

Pela primeira vez, não estava a comprar coisas para impressionar ninguém.

Estava a construir uma vida.

Comecei a fazer um enxoval aos 37 anos.


Não um enxoval para casar.

Um enxoval para regressar a mim.

Mas quando volto para casa, percebo uma coisa.

Eu estava pronta para regressar. A casa não.


Durante meses tinha comprado peças para um futuro que imaginava.

Pequenos objetos que simbolizavam estabilidade. Mas quando finalmente cheguei, não havia espaço para nada daquilo. Nem para a vida que eu tinha trazido comigo.

Nada estava preparado para me receber. 

Apenas tinha os meus pais de braços abertos e o Marley a ladrar como um louco.


Não tinha onde dormir.

Não tinha onde colocar as minhas coisas.

O meu investimento não cabia.

Eu estava pronta para a minha nova vida. A minha casa ainda não.

O regresso.

Quando deixei de me reconhecer

Estou com burnout. E agora?


Aceitei que não estava bem quando comecei a ver mal, a ter sensações de desmaio e tive um colapso no trabalho que me levou diretamente para o hospital.

Lá, foram muito claros comigo e disseram-me que não podia seguir com o ritmo de vida que tinha, que deveria escolher apenas um emprego e fazer as horas de um trabalhador considerado “normal”. (Eu trabalhava 14 horas por dia e folgava meios-dias e nunca dias inteiros) Estive umas semanas em Viana, de baixa, a ser seguida pelos médicos tanto de Viana como de Cascais.

Mas eu ainda queria continuar. 


O meu objetivo era fazer a obra estando ainda em Cascais e voltar quando estivesse tudo pronto. O problema é que nenhuma empresa me queria mandar embora ou chegar a acordo. As propostas eram ainda melhores só para eu ficar, mas não podia ser.

Eu via-me ao espelho e já não me reconhecia. E essa foi a sensação mais estranha que tive. Olhar para mim e sentir-me completamente perdida.


Não sabia o que queria ao certo. Não sabia o que fazer. Entrei em total desespero.

Achava que a decisão mais difícil da minha vida seria partir.

Mas, afinal, a decisão mais difícil foi regressar.

Regressar significava admitir que os meus planos tinham mudado.


Que eu tinha mudado.

Que o sucesso que procurava já não era o mesmo.

Não sabia exatamente como iria resolver tudo.

Mas sabia uma coisa.

Não podia continuar como nem onde estava.

E pela primeira vez em muitos meses, tomei a decisão.

Voltar para casa.

Cara de burnout 

Viagens 

Vida encaixotada

Mais uma mudança

Vazio.

Era suposto sentir-me feliz

Quando fui para Lisboa tinha um objetivo muito claro e nunca o neguei: ganhar dinheiro.

Durante meses, trabalhei mais do que alguma vez tinha trabalhado na vida.


Dois empregos. 

Dias intermináveis. 

Poucas horas de descanso. 

Pouco tempo para mim.

Mas resultou. 

O objetivo tinha sido cumprido.

Era suposto sentir-me feliz. Mas não foi isso que aconteceu.


Estava sozinha. Estava exausta. Estava mais magra do que alguma vez tinha estado.

E um dia acabei no Hospital de Cascais com um burnout.

Foi nesse momento que percebi uma coisa que nunca ninguém me tinha ensinado: há objetivos que conseguimos alcançar ao mesmo tempo que nos perdemos pelo caminho.

Tinha tudo o que queria: um bom emprego e um outro extra que me dava bom dinheiro e era amada pelas duas empresas. Nenhuma me queria dispensar e eu não sabia o que fazer.

Também não queria deixar ninguém ficar mal, mas começava a ser insuportável viver aquele ritmo louco.

Ao ficar doente, tive tempo. Tempo para pensar realmente no que estava a sentir.


Estava vazia.

Sentia falta dos meus pais.

Do Marley.

Dos abraços.

Dos jantares demorados.

Da vida simples que durante tanto tempo considerei garantida.

Mas havia um problema. (Algo que nunca pude partilhar aqui, até agora) 


Não tinha para onde voltar.


O sótão não estava habitável.

E, pela primeira vez, percebi a ironia da situação.

Passei meses a reconstruir as minhas finanças.

Mas a casa que queria chamar de lar continuava por reconstruir.






Permiti que a casa – a minha parte da casa – se destruísse...

 ... E mal eu sabia que eu também me estava a destruir aos poucos. 


O que Cascais me ensinou sobre abundância

Corria o ano 2023 e, graças a uma pessoa a quem serei eternamente grata por toda a aprendizagem, saí de novo de Viana. E lá fui eu… viver para Cascais.


Cascais é um mundo completamente diferente de tudo o que eu já vi e vivi.

Foi lá que comecei a observar estilos de vida, ambições e formas de encarar o sucesso muito diferentes das minhas. Foi lá que comecei a perceber uma coisa que nunca tinha questionado.

Durante muito tempo associei sucesso àquilo que era visível. Ao dinheiro. À roupa. À imagem. Ao estatuto.

Mas quanto mais observava as pessoas à minha volta, mais percebia que as verdadeiramente seguras de si eram quase invisíveis.

Não precisavam de provar nada a ninguém.

E esta foi uma lição que me acompanhou muito depois de sair de lá.

Apercebi-me que as pessoas pseudo-ricas ostentativas não me faziam bem.

Eu sou vaidosa, mas não sou de manias nem luxos. Nunca fui e nunca serei. Mas gosto de me vestir bem. Cuido de mim e arranjo-me porque sim. Não porque quero mostrar seja o que for. 


Ao longo do tempo fui aprendendo a ser discreta, cuidada, vaidosa, mais dona de mim.


Sabes quando queres sentir te bem, mas sem querer parecer sexy ou provocadora? Pois foi isso que aprendi.

A essência brilha seja qual for o tipo de roupa ou a marca da bolsa.

E foi nessa altura que comecei a olhar para a minha própria vida de forma diferente.

Para o dinheiro.

Para as minhas escolhas.

Para a casa que tinha deixado para trás.

E sem perceber, comecei a preparar-me para regressar.

Ainda não sabia.

Mas o caminho de volta já tinha começado.

Cascais 2023/2024


Chegou finalmente a altura de contar tudo

Não é por acaso que este blog esteve calado. Não é coincidência todo este silêncio, as palavras curtas ou as fotografias enigmáticas.


Estou ansiosa por vos contar tudo o que tive de manter em silêncio nos últimos tempos.



Estive a preparar uma nova entrada. E chegou finalmente a altura de contar tudo. ❤

Como sabem, estive em Lisboa durante um ano. 


Aprendi muito a nível profissional, tive dois empregos, descobri que a abundância é muitas vezes confundida com consumismo e ostentação e, acima de tudo, reconstruí a minha vida por completo.

Fui para Lisboa com um objetivo muito claro: ganhar dinheiro.

Ambiciosa? Sim, sou.

Mas por que não o ser?

Eu tinha um foco. Queria resolver as minhas finanças e juntar dinheiro para uma obra que é sonhada há seis anos.

Em 2020 remodelámos a nossa casa em Viana. 


Fizemos, em família, uma obra enorme que nos obrigou a viver fora durante alguns meses para que tudo pudesse ficar novo.

Quando regressámos, a parte de baixo da casa estava pronta.

Ficou linda.

Ficou nossa.

Ficou o nosso lar.

Com o passar do tempo, começou a chover para dentro de casa. O meu sótão ganhou humidade e tornou-se inabitável.

Mas, nessa altura, eu estava longe.


Tinha planos de não viver em Viana, de não viver naquela casa e de continuar durante mais algum tempo entre viagens, experiências e empregos fora da minha cidade.

Basicamente, não quis saber.

Enquanto perseguia novos projetos, novas experiências e novas oportunidades, deixei aquela parte da casa para trás.

Na altura parecia apenas um sótão.

Hoje sei que era muito mais do que isso.

Mas essa descoberta ainda estava longe de acontecer.


Obra 2020

Cascais 2023/2024



Este é o primeiro artigo sobre o tema

Casa. 
Dois anos de espera. 
Sofá.
Sala. 
Falta de privacidade. 
Apoio da família.
Stress. 
Ansiedade. 
Saudade da independência. 
Choro escondido. 
Sorrir para o mundo. 
Rezar na cama para Deus. 

Só Deus sabe. 
Converso com Ele todos os dias. 
Há dois anos. 
Religiosamente. 
Agradeço. 
Entrego. 
Peço. 
Confio. 

Chegou a hora. 
Vai começar agora. 
A minha vida está finalmente 
A começar. 
Obrigada.